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Porém, como já era assaz comum no Brasil da época, os senhores do Brasil embelezavam a fachada, enfeitavam o hall, mobiliavam a sala e despreocupavam-se com a cozinha. Os navios eram o que havia de melhor no século apenas-iniciado; as condições de vida e trabalho da maruja assemelhavam-se às dos navios tumbeiros dos tempos do tráfico. O soldo era baixo; a comida, ruim, o trabalho, duríssimo. As mínimas faltas eram castigadas com tronco, solitária e ginástica punitiva, executada até quase o desfalecimento, a temida "sueca". Em plena República, os marinheiros apanhavam bolos e eram vergastados, como cativos dos tempos da escravidão. Piorando tudo: a soberba oficialidade orgulhava-se de seu "sangue limpo" e desprezava uma marujada formada por negros, mulatos e caboclos. Na Inglaterra, os marujos conheceram o movimento sindical e socialista europeu e informaram-se sobre a revolta, de 1905, dos marinheiros russos do Potemkin, contra seus oficiais. A velha tradição de luta, expressa em pequenas revoltas anteriores, conheceu salto de qualidade, ensejando ampla e bem organizada conspiração pelo fim da chibata e por melhores condições de trabalho e vida. João Cândido aos 30 anos transformou-se no porta voz da revolta dos marinheiros. Menos conhecida é a trajetória da vida de João Cândido após a ruptura da anistia, concedida e desrespeitada, iniquamente, pelo Parlamento e pelo presidente Hermes da Fonseca, que ensejou o massacre da ilha da Cobras e do navio Satélite, entre outros covardes crimes praticados contra marujos desarmados.Aprisionado, internado, julgado e inocentado de todas as acusações, João Cândido foi libertado, aos 32 anos de idade, no Rio de Janeiro, tuberculoso e sem recursos, quando os fatos eram ainda candentes. Procurando adaptar-se à nova vida, tentou, com sucesso inicial, a sorte na marinha mercante, de onde foi rapidamente desembarcado pelo dedo acusador do comandante dos portos de Santa Catarina, que exigiu que o líder dos marujos fosse lançado novamente no desemprego. Fechando-se o mar ao Almirante Negro, por meio século, João Cândido navegou por entre os escombros do desemprego, do subemprego e de uma aposentadoria miserável, rota de cabotagem singrada invariavelmente pela imensa maioria da população brasileira trabalhadora negra, daquelas e de nossas épocas. Em 6 de dezembro de 1969, no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar, encerrava-se a existência atribulada desse marinheiro que suportou, sobre as suas costas largas, as desditas normais do negro pobre brasileiro e as glórias de ter dirigido um dos mais fulgurantes movimentos sociais de nosso passado. Um destino singular, que certamente esmaeceu as mais descomedidas expectativas do menino que assistia, embasbacado, a evolução vagarosa das barcaças do seu Jacuí natal, sem saber que a vida lhe reservaria o papel de Prometeu Negro, castigado, na eternidade de sua vida longa, pelo crime de desafiar os falsos mas poderosos deuses do Olimpo nacional. |
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