Meninos negros de 10 anos já apareciam com "coroas" na cabeça por carregarem tabuleiros, tijolos, areia e barris na cabeça. Negros com munhecas comidas por serem amassadores de cal, e a cal lhes ter aberto feridas e comido os dedos, outros com munhecas inteiras comidas - talvez pelas moendas de engenho; outros com calos de amassar pão. A maior parte dos negros tinha pés e mãos enormes deformados pelo trabalho.
Nos anúncios dos negros fugidos, de que estavam cheios os jornais do tempo do Reino e do Império, encontrava-se muitos sinais de deformações de corpo do homem, da mulher e do menino escravo. Deformações por excesso de trabalho, por doença, por tatuagem, por condições anti-higiênicas de vida e talvez de alimentação em certas senzalas. Também cicatrizes de açoite e de ferro quente. São inúmeros os casos de negros rendidos, quebrados, com veias estouradas ou calombos no corpo. Vários casos de negros fugidos com máscaras ou mordaças fechadas com cadeados. As máscaras eram usadas (informa em artigo nos Anais Brasilienses de Medicina o médico Gama Lobo) contra a voracidade por toda espécie de frutas, até as verdes, dos escravos sofrendo de oftalmia a que denominou de brasiliana. Doença que seria causada pela má alimentação em certas fazendas do Império. Os negros aparecem nos jornais com os olhos doentes, alguns cegos de um olho.
Numerosos os negros que apresentavam, nas coxas ou nas costas, letras, sinais ou carimbo de propriedade , como hoje o gado, ou então, marcas de surra e castigo. O corpo deformado pela crueldade dos senhores brancos: uns manquejando, os quartos arreados em conseqüência de surras tremendas; outros com cicatriz de tronco, de corrente no pescoço, de ferro nos pés, alguns com queimaduras na barriga.
Também surgiam nos anúncios negros com o corpo deformado, não por castigo ou surra dos senhores, mas pelos golpes ou "talhos que deram em si", na garganta ou no peito. Tentativas fracassadas de suicídio, nos momentos de banzo ou de raiva.
Apareciam negros de braço esquerdo mais comprido que o direito, alguns com seis dedos nos pés, outros faltando o dedo mindinho, velhos puxando pela perna, talvez inchada. Não eram raros os doentes de úlceras, os pés cheios de bichos, os de feridas que nunca saravam no pé ou na perna. E surgiam vez ou outra negros lesos ou malucos, os inclinados à violência, ou valentões, tristonhos, sorumbáticos e calados efeito, talvez, em alguns casos, de influências sociais deformadoras da alma, e não apenas do corpo.
Fonte:O ESCRAVO NOS ANÚNCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS SÉCULO XIX Autor: Gilberto Freyre
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