A Irmandade do Rosário dos Pretos constitui-se no principal espaço de negociação entre os negros e o governo da província, possibilitando novas situações sociais, como alforias para essas pessoas. Nesse aspecto, a Irmandade do Rosário dos Pretos foi e é até hoje o meio político oficial de ação desse grupo na vida urbana e rural, com o intuito de louvar a N. S. do Rosário e S. Benedito e, assim a identidade cultural.
Desde o século XV, em Portugal, se tem notícias que os negros já se reuniam em irmandades, que elegiam e festejavam reis. Assim, aqui no Brasil, não demorou para a festa ser integrada aos dias santos do calendário da colônia. Apesar de no sudeste do Brasil, o Cortejo Real do Congo ser mais presente, essa manifestação é encontrada também no norte do país em Cametá/PA, no Esprírito Santo, Bahia, Rio Grande do Sul, Armação de Itapocoroy/SC, Catalão/GO.
O Congado é mantido através da família e da tradição oral - a memória do povo africano não utiliza suportes escritos ou iconográficos. Sua maior fonte de conhecimento são os velhos, as pessoas - memórias que ensinam para os filhos e netos aquela tradição. Para essa cultura, vivenciar a situação é mais importante que registrar ou aprender com aulas. Estar de corpo e alma é muito significativo para o registro dos fundamentos, que passará a estar marcado em sons, cores e formas próprio corpo do praticante. Para eles é necessário a prática, o entrecruzamento, a convivência nas tradições.
Entretanto, a tradição oral não se fecha de forma estática, parada no passado. É composta e assimila memórias dinâmicas, fiéis e móveis, repletas dos jogos e negociações existentes nas relações humanas, entre cada indivíduo e deles com o grupo. A partir desses contatos, desponta uma hierarquia que coloca a festa em ordem e transformava a rotina na preparação da festa.
Assim, a principal base de transmissão dessa tradição oral é a família, núcleo primário, ou de origem, que se amplia formando uma outra noção de família. Basicamente o pai ensina o filho, os sobrinhos. O avô auxilia o pai. Entre sobrinhos e filhos juntam-se os agregados - que não são consangüíneos, mas vivenciam o hábito, e passam, então, a fazer parte desta família. Diz-se que a pessoa que ensina, o pai, torna-se pai dos sobrinhos e também dos agregados. È uma noção de família que extrapola a noção tradicional de família cristã ocidental. Baseia-se numa linhagem, que significa uma formação educacional de saber manter os laços sociais e as regras de convivência baseado numa matriz, que é muito mais antiga que o pai. O pai é o último representante dessa linhagem, ou melhor desse conhecimento transmitido oralmente.
Cada terno então é tem como núcleo, uma família consangüínea, que forma a grande família do terno. O terno pode ter até 4 capitães, sendo que, o primeiro capitão representa o pai daquele grupo. O seu filho de sangue que deve substituí-lo, quando morrer. Normalmente, a irmã, ou tia, ou mãe do capitão é a madrinha do terno que representa a grande mãe.
As figuras femininas tem muita força dentro do Congado: às mulheres é reservada a função de escolher a farda, a roupa, a comida, os bordados dos estandartes e a bandeira que vai ser usada nos dias da festa, e deve estar dentro dos fundamentos originais da manifestação. São também portadoras da ligação com os rituais de Umbanda e Candomblé - onde se guardam os segredos místicos do rito - e que são centros formadores dos Congos.
Mas o que mantém o rito é a fé. Fé sincrética, mista de batuque africano com tradição católica. É na fé dos santos católicos que é depositada a legitimação do rito para os próprios congadeiros. E o batuque é a consagração do poder de transformação e aceitação da realidade que vivenciam. Essa prática é, antes de tudo, uma prática sócio-cultural.